sábado, 9 de julho de 2011

Caso de Juan traz à tona centenas de desaparecimentos

09/07/2011 - 07h00

Até hoje sem solução.........

Fabíola Ortiz
Especial para o UOL Notícias
No Rio de Janeiro

  • Polícia do Rio confirma morte do menino Juan Polícia do Rio confirma morte do menino Juan
O caso do desaparecimento do menino Juan Moraes, 11, no dia 20 de junho após uma operação policial na Favela Danon, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, trouxe à tona uma discussão recorrente no Rio de Janeiro: existem centenas de outras pessoas que estão desaparecidas no Estado que até hoje não foram encontradas por falta de provas.
Erros na perícia ou, simplesmente, negligência acabam fazendo com que muitos sejam arquivados. No caso de Juan, a polícia encontrou o corpo do garoto na quinta-feira (30), mas a primeira informação foi de que se tratava de uma menina. Na quarta-feira, exames de DNA comprovaram que houve um erro engano e tratava-se mesmo do menino desaparecido.
Segundo os dados mais recentes do ISP (Instituto de Segurança do Rio de Janeiro), nos primeiros cinco meses deste ano (de janeiro a maio), foram registrados 2.381 casos de pessoas desaparecidas no Estado, sendo que a cidade do Rio concentrou 40% dos registros (961).
Para tentar descobrir o paradeiro do caso mais recente de sumiço, a ONG Rio de Paz havia lançado a campanha “Todo o Rio quer saber onde está Juan” e, após o corpo do menino ter sido encontrado, a entidade quer saber “Quem matou Juan?”. 

Reconstituição do caso Juan, no RJ


Foto 7 de 12 - Policiais isolam as ruas que dão acesso ao local da reconstituição da morte do menino Juan de Moraes, 11, na comunidade Danon, em Nova Iguaçu (Rio de Janeiro). Juan desapareceu no dia 20 de junho, após incursão de policiais militares do 20º Batalhão à comunidade. Depois de um erro de perícia, a Polícia Civil do Rio anunciou quarta-feira que o corpo do menino havia sido encontrado na semana passada, em Belford Roxo Mais Zulmair Rocha/UOL
“Realmente houve um aumento de casos de desaparecimentos no Rio de Janeiro, mas ninguém sabe quantos estão mortos”, afirmou ao UOL Notícias o presidente da ONG Rio de Paz, Antônio Carlos Costa. “Como não há pesquisa, não dá para saber. Mas, sem dúvida, muitos dos desaparecidos já morreram. Recebemos informações de policiais que dizem que em 70% dos desaparecimentos, as vítimas estão mortas”, criticou Costa.
A ONG tem reivindicado a realização de pesquisas como forma de pressionar as autoridades a continuar investigando os sumiços e apurando os desaparecimentos, já que acredita que há muitos casos não registrados nas delegacias que, por isso, não são contabilizados. 

"Nunca mais acha"

“O que aconteceu com o meu filho foi a mesma coisa do que aconteceu com o Juan. Eles somem com o corpo e ninguém acha nunca mais”, disse ao UOL Notícias Izildete Santos da Silva, 60, cujo filho desapareceu em 2003 também após uma abordagem policial. Sem provas e sem corpo, a investigação foi arquivada em 2007.
Segundo informações da ONG Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência, um movimento social que reúne ativistas de direitos humanos e acompanha casos de vítimas da violência policial ou militar, como o de Dona Izildete, a investigação foi arquivada em 2007. Contudo, a delegacia responsável informou que o caso não foi arquivado e ainda está em processo de apuração. Contactada, a delegada titular da 55ª DP em Queimados não autorizou passar mais informações para não prejudicar a investigação.
Fábio Eduardo Soares Santos de Souza, 20, e um amigo foram vistos pela última vez na noite de 9 de junho de 2003 quando saíam de uma festa junina. Foram abordados por quatro policiais em Queimados, na Baixada Fluminense.
“Faz oito anos que ele sumiu e até agora nada. Até hoje ficou por isso mesmo. Pegaram os meninos, botaram dentro do carro e levaram, mas para a delegacia não foram. Eu continuo correndo atrás. Já fui na Corregedoria da Polícia Militar, no Ministério Público, mandamos até para a OAB (Ordem dos Advogados)”, disse Izildete, que afirmou ser ameaçada por policiais colegas dos autores do crime.
A mãe do jovem desaparecido contou que tem muita dificuldade de levar o caso adiante por conta da falta de informações e provas, das ameaças que recebe e da burocracia das delegacias, mas que recorreu até à Comissão de Direitos Humanos da Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro).
Um dos policiais envolvidos no caso de seu filho também teve participação na Chacina da Baixada que ocorreu em agosto de 2006. Naquele ano, 29 pessoas foram assassinadas em Queimados e em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense.
“Meu caso está esquecido e até hoje eu sou ameaçada. A minha saúde acabou, tenho pressão alta. E os meses de junho e julho são os mais críticos”, conta Izildete. “Quero que olhem para o meu filho. Tenho muita esperança ainda. Já apareceram ossadas, mas não se sabe se é do meu filho. Antes de morrer eu queria uma solução.”

Adolescente sequestrado

Em 2005, policiais de quatro batalhões de Polícia Militar receberam R$ 50 mil de traficantes para alugar carros blindados, os Caveirões, sequestrar adolescentes em Vigário Geral, na zona norte do Rio, e entregá-los à facção de Parada de Lucas.
“Naquela época a PM ocupava os acessos da comunidade de 18h às 6h, mas na noite de 12 de dezembro de 2005, estranhamente, a ocupação saiu mais cedo, entre 0h e 1h. Entraram dois carros blindados de policiais com traficantes, que deram R$ 50 mil para alugar dois caveirões e 30 fardas da PM”, disse D.A.T. ao UOL Notícias
Mãe de Douglas Roberto Alves Tavares, 16, um dos adolescentes sequestrados, D.A.T. ainda busca o paradeiro de seu filho e tem medo de represálias. “Eu acompanhei tudo de perto, fui para Brasília pedir ajuda de deputados e fui à Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência. Sequestraram 13 pessoas, quatro delas foram liberadas e as outras nove foram torturadas à noite toda e sumiram. Eram meninos de 13 a 16 anos”, contou.
Douglas era estudante e estava terminando o Ensino Médio. D.A.T. conta que ele havia recebido uma bolsa para estudar nos Estados Unidos e queria seguir a carreira de jogador de futebol. Ela não descarta a possibilidade de seu filho ter amigos da facção, “mas ele nem tinha tempo para o tráfico, às 7h ia jogar futebol, depois às 13h ia para escola até às 18h e depois voltava para casa”, lembrou.
“O delegado me disse que ele estava no lugar errado e na hora errada. Eu tenho esperança de algum dia ver meu filho vivo. Ainda não o vi nem tive notícia. Foi um caso complexo de vingança”, acredita.
D.A.T. disse que foi ameaçada tanto pela PM quanto por traficantes e já trocou de casa diversas vezes, mas escolheu não ingressar no programa de proteção a testemunhas para não deixar de acompanhar as investigações.
Segundo informações da ONG Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência, o caso foi arquivado no final de 2006. O crime ocorreu na madrugada do dia 13 de dezembro de 2005 e cinco dias depois, o caso seguiu para a Divisão de Homicídios, contudo não avançou nas investigações. A Polícia Civil foi contactada pela reportagem, mas não soube informar sobre o andamento da investigação ou seu arquivamento.

Acari completa 21 anos

“A Chacina de Acari completa 21 anos sem corpos e sem respostas”, disse ao UOL Notícias Marilene Lima de Souza, 59, a única remanescente do grupo das Mães de Acari que ainda luta para levantar adiante o caso, que prescreveu em julho de 2010.
“As mães estão morrendo, infelizmente, e a gente continua sem resposta. No caso do menino Juan, eu torci muito para que encontrassem o corpo dele. Eu imagino o sofrimento da mãe, eu também passei por isso. É um luto para vida toda.”
A chacina de Acari ocorreu em 1990, quando 11 pessoas do bairro de Acari, no Rio de Janeiro, foram levadas a uma fazenda em Suruí, no município de Magé. “Minha filha, na época com 18 anos, e mais dez jovens foram sequestrados por seis homens que se diziam policiais. Não conseguimos encontrar nada que dissesse que eles estão mortos ou vivos. Tenho um vazio na minha casa e não tenho essa resposta de onde estão”, contou Marilene.
O caso chamou a atenção da comunidade internacional e de movimentos de defesa dos direitos humanos, como a Anistia Internacional. O crime foi objeto de denúncia nas Nações Unidas e, em 2000, foi parar na Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA).
“Conseguimos agora há pouco tempo uma certidão de ausência de corpo, ou seja, de morte presumida porque antes não tinha corpo e não tinha crime. O crime não foi devidamente periciado”, disse Marilene.
Segundo a mãe, nenhum dos policiais foi condenado, “não foram nem mesmo indiciados, o inquérito foi se arrastando até que foi arquivado em 1998 por falta de prova.”
Com a saúde debilitada, diabetes e problema de visão, Marilene disse que queria ter o direito de enterrar sua filha. “Estou muito fragilizada. O resultado, mais de 20 anos depois, é um papel com resumo de um crime com morte ignorada. A gente tem que continuar vivendo, eu quero acreditar que alguma vez as leis deixem de ser tão permissivas e que a gente tenha uma polícia que trabalhe para a sociedade.”
Marilene lembra do caso da engenheira Patrícia Amieiro Branco de Franco, 24, desaparecida no dia 14 de junho de 2008, que teve seu carro atingido por projéteis de arma de fogo e caiu no canal da Barra da Tijuca. O corpo da engenheira não foi encontrado e quatro policiais militares são acusados da morte e ocultação do corpo da jovem.
"E assim a gente vai de tragédia em tragédia com uma polícia cada vez mais envolvida em delitos”, lamenta.

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